É hoje! Foi a primeira frase que disse no dia 29/12 quando o Enrico nos acordou avisando que já passavam 15 minutos das 6 da manha. O combinado era saírmos entre 7h e 8h, para escaparmos do frio e acelerarmos rumo ao cume. A expectativa média é de 8h para fazê-lo.
Esquentamos a água, comemos o que tínhamos e nos vestimos. Para nao pegarmos a roupa congelada, já que a noite é muito fria, dormimos com tudo dentro do saco de dormir, gorros, luvas, casacos, calças e inclusive os cantis, que congelam se ficam pra fora. Digo pra fora do saco de dormir, fora da barraca nem pensar!
Às 7h ouvimos os ingleses passarem do lado de fora e também saímos. Éramos os últimos a tomarmos o rumo do cume naquele dia. E lá longe no alto víamos a fila de expediçoes e independentes subindo a montanha.
A noite foi ótima, apesar da altitude, nao ventou, nao nevou e o sol já aparecia cedo. E o melhor de tudo, sem vento! Tinha que ser hoje!
Apressado que sou já saí saindo. Enquanto Rico e Tina faziam os últimos ajustes começei minha caminhada. E estava me sentindo muito bem, como vinha mesmo me sentindo por todos os outros dias. Estávamos no 11° dia da expediçao e eu nao havia tido uma mísera dor de cabeça. Um pouco de frio nos pés no começo, depois nas maos, mas eis que o sol surgiu de vez e lá fui eu apenas com uma luva simples de fleece.
Quando terminei o segundo grande lance de subida precisei parar para botar os crampons (garras de alumínio para a bota). A partir daquele trecho, só neve. Eu estava no refúgio Independência a 6.300m e passei um rádio pros dois.
Perguntei: Onde estao voces? A Tina atendeu e disse que estava vindo, mas que o Enrico sentiu os dedos congelarem e havia voltado para a barraca.
Só mais tarde fui saber que o o problema com o Enrico havia sido de alimentaçao. Ele sentiu-se muito fraco logo na saída daquele dia, na véspera mal jantou, pois o rango desidratado que tanto confiamos, depois de uns dias, estava difícil de engolir. Eu mesmo havia jantado o meu último na marra. O Enrico se alimentou pouco, dedicou-se com todas as forças pela expediçao, sempre tomando a dianteira nas tarefas mais pesadas, carregando a maior carga e acabou lhe faltando uma alimentaçao mais rica e completa, deixando-o na mao justo no último dia.
A partir daquele momento nao éramos só a Tina e eu, éramos os cinco da expediçao inicial, mais os 6 de 98 e toda a torcida de familiares, amigos e simpatizantes. Mandei um incentivo pra Tina e seguimos adiante.
Fui com tudo pra cima da montanha. Passei a expediçao do baiano, que pensávamos terem tentando na véspera, e fui subindo rápido e rasteiro. Nao era pra ser uma corrida, mas eu estava me sentindo muito bem, nao queria perder tempo e quem nos conhece sabe como somos competitivos… hehehe.
Quando terminei a subida que leva ao Grand Acarreo e de onde pode-se ver a canaleta (último e temido obstáculo) e o cume, comentei com o Australiano ao meu lado. ¨Fácil demais! Conseguimos!¨ Só que pra meu engano eu só havia cumprido metade da tarefa. A última rampa de neve do Grand Acarreo é de matar, e àquela altitude me obrigou a uma segunda parada e um lanche pra recarregar as baterias.
Quando finalmente cheguei à Cueva (entrada da canaleta) eu era o primeiro da fila naquele dia, ninguém havia feito o cume até entao e nos restava a famigerada Canaleta! Uma rampa de 400m, acima dos 6500 m de altitude e com 35° de inclinaçao (atençao, pra checar essa inclinaçao faça o seguinte: desenhe uma linha vertical. No topo da linha coloque o vértice e entao abra um angulo de 35°. É isso aí, 400m pra cima!)
Cheguei a comentar com um guia de expediçao que hoje teria cume pra todo mundo. Ele sorriu, disse que estava de acordo, mas a realidade se mostraria outra…
Eu havia parado apenas 2 vezes até chegar ao pé da canaleta. Durante a subida da canaleta eu parei mais de 10 vezes. Aquela inclinaçao era ridícula! Nao dava pra competir! E por ser o primeiro eu tinha que cavar com os pés os degraus para superar os lances daquela parede em minha frente. Ajoelhei, sentei, deitei e durante vários momentos tive dúvidas se alguém faria o cume naquele dia. É muita sacanagem que o trecho mais inclinado, mais comprido e mais cansativo tivesse que aparecer justamente no final do dia.
Mas o fato é que depois de 2 horas naquela rampa e 5 horas e 20 minutos depois de ter deixado a barraca eu consegui! Fui o primeiro no cume naquele dia e permaneci sozinho lá em cima por uns 30 minutos até que outros chegassem para tirarem uma foto minha. Foi tempo suficiente para deitar, assinar o livro do cume, curtir a conquista e a paisagem (uma pena que a parede sul esteve o tempo todo encoberta por nuvens).
Me lembrei de muita gente lá em cima, de todo o esfoço empreendido desde os preparativos em Brasilia e principalmente do meu time, que me proporcionou aquela conquista maravilhosa. Foi o esforço mais extremo que já fiz em minha vida e estou certo que será difícil superá-lo. E olha que já andei ralando um bocado por aí…
Depois de cerca de 45 minutos comecei a descida. Passei outro rádio para a Tina e ela estava a caminho. Nos cruzamos no meio da canaleta. Passei a máquina fotográfica pra ela, os parabéns, um abraço e seguimos cada um na sua direçao. Vi também os ingleses e o baiano subirem e conquistarem seus cumes naquele mesmo dia.
Em 2h30 eu estava de volta ao acampamento Cólera, onde o dia havia começado. O Enrico me esperava com bebidas e lanches, pra variar cuidando do bem estar da equipe… E no mesmíssimo instante a Tina chamava no rádio. Ela estava no cume! Que fera! Mais um ponto pra nossa expediçao! Sozinha ela tocou firme até lá em cima. Deixou muito marmanjo para trás e ainda tinha todo o caminho de volta por fazer.
Acertamos que desceríamos naquele mesmo dia para o acampamento base. Nao fazíamos questao de outra noite a 6000m de altitude. O Enrico me ajudou com minha mochila, peguei minha carga e comecei a descida. Cruzei com os amigos de Ushuaia que subiam para uma tentativa no dia seguinte, me cumprimentaram pelo cume e ficou a promessa de contatos futuros.
Desci como uma pluma, satisfeito e sem a menor pressa. Pela primeira vez em 11 dias eu nao tinha que me preocupar com a hora, com montar acampamento, ou algo do tipo. Me despedi do Aconcágua numa imensa paz, calma e tranquilidade. Me emocionei e vibrei por estar ali naquela situaçao.
Quuando o Bruno me viu chegando em Plaza de Mulas (acampamento base) nao entendeu muito bem o que estava acontecendo. Me perguntou se eu havia feito o cume e respondi o mais marrento possível: CLAAAAARO. Hahahaha.
Preparei dois miojos pra mim e dois pro Bruno, o saboreei como o prato mais gostoso do mundo.
Ficamos tentando contato via rádio com o Enrico e Tina. Só depois de um bom tempo é que conseguimos. Desceram carregados e cansados. A todo tempo olhávamos para o Aconcágua a fim de enxergá-los. Chegaram ao acampamento base no limite, as 9h30 da noite e usando suas lanternas de cabeca. Fomos recebe-los no pé da montanha, na travessia dos penitentes (areas de neve e gelo com lanças de gelo compridas onde passamos entre elas).
Fomos ao refeitório, preparamos mais janta e bebidas e em seguida dormimos o sono mais fácil e merecido de toda a viagem.
No dia seguinte empacotamos tudo e depois de mais 7h30 fizemos todo o trecho de volta até a entrada do parque. Satisfeitos, realizados, muito cansandos, mais magros, porem engrandecidos pela experiencia extrema e morrendo de saudades de todos e de tudo o que é civilizado (banho, torneiras, camas, restaurantes e coisas do tipo).
Foi assim.
Obrigado a todos pela torcida e pela força. E principalmente pela paciencia, já que decidimos contar tudo da maneira completa e portanto, mais demorada. Pra quem quiser vir conosco na próxima, as incriçoes já estao abertas e sao gratuitas. Vai encarar?
Beijos, abraços e ate a volta.
Lu, Bruno, Rico e Tina.